10 agosto, 2005

"Mostrem-me algo novo, que começarei tudo outra vez" - Erik Satie

Declama, Wally!

Eu faço versos
Como quem chora
De desalento
De desencanto
Fecho o meu livro
Se por agora
Não tens motivo
Nenhum de pranto

Meu verso é sangue
Volúpia ardente
Tristeza esparsa
Remorso vão
Dói-me nas veias
Amargo e quente
Cai gota
A gota
Do coração

E nestes versos
De angústia rouca
Assim dos lábios
A vida corre
Deixando um acre
Sabor na boca
Eu faço versos
Como quem morre

autor: Wally Salomão
coletado em uma de suas comunidades do Orkut: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1812395
visite tb a outra: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=1284099

06 agosto, 2005

POESIAS & OUTRAS PALAVRAS...

Hoje, nesse momento, estou com os neurônios lerdos, preguiçosos, mas não gostaria de deixar passar mais um fim-de-semana sem postar nada, então estarei usando o talento de outras pessoas para depositar aqui nesse espaço um pouco mais da beleza humana que se manifesta através da arte; nesse caso, a arte de transformar sentimentos puros, intensos, sutis, indignados ou racionais em palavras envolventes, sábias e/ou emocionantes. Até uma constatação de John Lennon, daquelas bem óbvias e datadas, mas que ainda se aplica ao que está ocorrendo no mundo atual usei no tópico abaixo. Hoje só iria postar isso, mas aí achei que seria preguiça demais, então parti para a cara-de-pau total e abusei mesmo do verbo alheio...

Também sei que as vezes publico algumas coisas que podem parecer piegas, mas existem sentimentos que, desnudos, parecem tão infantis quanto a mais pura utopia que o ser humano há muito já se esqueceu. Então, ao ir correndo o cursor palavras abaixo, desnude-se também de pré-conceitos que possam embotar a mente e bloquear o livre-fluxo e o livre-arbítrio da alma e se entregue ao seu lado sensívelmente piegas...

Quero agradecer às pessoas que não sabem que me permiti copiar esses escritos abaixo, prometendo que na semana que vem eu coloco a fonte, pois no momento simplesmente estou captando-as do arquivo disperso do compter, onde as depositei aleatóriamente, sem anotar as fontes, e colando-as aqui...

Se os autores que deixaram essas palavras em algum blog, no perfil ou em algum scrap do Orkut, favor registrar sua reclamação na área dos comentários que depois anoto no rodapé do texto especificado...



"A vida é como uma estrela cadente, não importa quem você é, se apenas buscar por proteção somente desperdiçará seu tempo.” ( Live, The Dolphin's Cry)

"Depois de algum tempo, aprendemos a diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
Aprendemos que amar não significa apoiar-se e que companhia nem sempre significa segurança.
Aprendemos que beijos não são contratos nem promessas.
Que é possível fazer coisas em um instante das quais nos arrependeremos pelo resto de nossas vidas.
Que não importa o quanto a gente se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam.
Passamos a aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante.
Descobrimos que só porque alguém não nos ama do jeito que queremos,
não significa que esse alguém não nos ame com tudo o que pode.
Aprendemos que o tempo não volta.
E que realmente podemos suportar."


(o texto abaixo apresenta o perfil, no Orkut, da minha amiga mais que amiga, paixão que nasceu no ano passado para uma vida inteira, Larissa Frota, de João Pessoa que, como lerão em outro tópico mais abaixo, postado na quarta-feira, também contribuiu com outro texto maravilhoso e suavemente intenso, o "Amigo Aprendiz").

"Olhe bem para esses olhos... o que você vê?"


"Eu sou pau pra toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Minha força não é bruta
Não sou freira nem sou puta
Não sou uma brasileira que é só bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem
Eu não nasci pra sofrer
Cara feia pra mim é fome
E eu não faço manha pra comer
A vida é como uma escola
E a morte é o vestibular
No inferno eu entro sem cola
Mas o céu eu vou ter que descolar
Mas quando alguém precisa de um carinho meu
Não há nada que me prenda
Mas se eu sentir que um bicho me mordeu
Sou mais ardida que pimenta!
No fundo eu sou otimista
Mas às vezes imagino o pior
Me cansa essa vida de artista
Mas cada vez o prazer é maior."

 ClicK-n∆s Im∆geNs para ∆∑PLia-LaS

04 agosto, 2005

UMA ORAÇÃO

Recuse-se a cair.
Se não puder se recusar a cair,
recuse-se a ficar no chão.
Se não puder se recusar a ficar no chão,
eleve o coração aos céus
e, como um mendigo faminto,
peça que o encham,
e ele será cheio.
Podem empurrá-lo para baixo.
Podem impedi-lo de se levantar.
Mas ninguém pode impedi-lo
de elevar seu coração
aos céus -
só você.
É no meio da aflição
que tantas coisas ficam claras.
Quem diz que nada de bom
resultou disso
ainda não está escutando.

Clarissa Pinkola Estés

Copiado do blog
http://correndocomlobos.weblogger.terra.com.br

03 agosto, 2005

O Eu Profundo

Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver,
acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao
mundo e maior amor ao coração dos homens."

(Fernando Pessoa, em "O Eu Profundo")

te quero inteira



Venha aqui que eu te quero inteira,
Quero sussurrar palavras vagabundas em seus ouvidos,
Ofegar as emoções perdidas em nossas vidas
cheias de sensações baratas,
cheias de aventuras secretas.
Perdidos nos labirintos de nossos sentimentos vãos,
suados em embates animalescos
dissolvidos em extâses sem fim
universo afora…



Você pensa que te perdi,
mas está enganada,
porque a única perdedora aqui é a vida,
que deixou de possuir os gemidos mais vigorosos,
a energia mais intensa e pura
que duas pessoas possam criar
a partir do encontro de dois corpos;



quando duas almas se desnudam
e se expõem totalmente,
inteiras, sem defesas,
prontas para o ritual mais grandioso
que duas pessoas possam criar,
que é unir suas essências
em corpos separados,
desafiando a matemática e a física,
provando que 1+1 é igual á 1
e que dois corpos podem sim,
ocupar o mesmo espaço;

porque sentimento como o nosso
é tão raro quanto o ar puro,
a água cristalina, limpa, deliciosa
e a visão real de anjos na terra…
















[{as imagens usadas nesse tópico - e milhões de outras - podem ser encontradas no site www.allposters.com}]

Amigo Aprendiz


Essa poesia, que acho maravilhosa e sempre me encanta quando a leio, está no meu perfil no Orkut e foi postada no testemonial pela minha amiga e mais recente paixão (de amigos, claro!), Larissa Frota, essa beleza suave que ilustra a própria. As palavras e a composição dos versos descrevem a amizade perfeita, aquela que permite um equilibrio entre todas as coisas boas que une duas pessoas que se gostam muito, como é o nosso caso.

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida,
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar

Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias!

perfil de Larissa Frota no Orkut: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=3906613794832615561

meu perfil no Orkut: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=11337613903806017139

12 julho, 2005

“Paixões”


''Amar, ao que parece, significa alienar-se, drogar-se, perder-se, buscar o inatingível, desprezar o possível. E esse comportamento manifestamente patológico deve corresponder a uma necessidade muito básica e profunda do ser humano, porque podemos reconhecer-nos nos sentimentos dos troianos de 3 mil anos atrás ou dos trovadores do século XII''

Do livro “Paixões” de Rosa Montero

11 julho, 2005

tempo, tempo, tempo....



Olá pessoal,
desculpe a falta de atualização, mas estou com o tempo totalmente tomado por outras coisas
de vital importância para a minha sobrevivência, mas isso não quer dizer que vou parar com meu prazer. Assim que for possível, retorno com a magia das palavras e das imagens que elas criam...


bjs prás minas, abs pros manos...

imagens de Roy Lichtenstein

28 junho, 2005

Noites calmas



Sou um caminhante noturno,
como os lobos de pradarias urbanas
como os nômades das estepes,
passeio
por entre palavras soltas no universo,
e paro,
farejo,
e vou ficando;
quando a paisagem me agrada,
me aconchego,
me alimento
e descanso por entre os sons
que essas palavras criam,

me inebrio
no prazer do acalanto
das vozes sussurantes
que ecoam e se espalham no ar
como o vento por entre as folhas,
criando uma trilha sonora envolvente,
criando um ambiente sedutor
como a luz da lua cheia que invade esse mundo,
iluminando meus olhos,
que estão suspensos,
fixos na fonte dessa luz...
uivo,
num dueto com suas palavras
que ecoam na nossa noite...
e já descansado,
caminho ao seu lado,
rumo ao nosso destino,
quem se importa?
eu também não sei qual é...

Postado por mim nos comentários do blog
http://correndocomlobos.weblogger.terra.com.br/

A quem carrega os lobos na alma






Aos homens e mulheres
que carregam o lobo no nome
e também no sangue e na alma,
que uivam para a lua cheia,
para as suas paixões,
para os seus vazios
e sua solidão noturna;
que em meio à matilha de seus instintos,
e no poder de sua invisibilidade
no meio das multidões,
sente a divindade selvagem que nos toma o âmago
e nos enleva ao prazer único
de sermos nós mesmos,
tão diferentes de todos,
tão distantes de todos,
no entanto, com o olhar aguçado que á tudo pode ver,
com a alma sensível como radar,
que a tudo sente,
e carrega no ventre
a força da vida,
que explode sempre,
principalmente quando nos vemos sózinhos,
longe dos olhares estranhos,
que buscam os nossos
em busca do brilho de nossa alma...

Postado por mim nos comentários do blog
http://correndocomlobos.weblogger.terra.com.br/

16 junho, 2005

“Mas as pessoas nem sempre agem do mesmo jeito. São boas num minuto e más no minuto seguinte. Cometem erros. Gente boa faz coisa ruim.”

Paul Auster - Noite do Oráculo

minha sensibilidade

minha sensibilidade
não é lata de lixo não
nem espremedor de laranjas
a triturar frutas sem parar
nem alvo para testes de pontaria
para dardos venenosos
que sua maldade decide atirar,
tampouco sou bagaço de laranja
que você pode cuspir fora
quando não mais consegue
caldo dela tirar,
nem sou esgoto
pronto para receber
tudo o que você não consegue digerir
sem ao menos descarga querer dar,
não sou saco de pancada
para seus treinos de boxeadora
para quando sua raiva
e suas neuroses
você quiser extravazar...
não jogue prá cima de mim
tudo aquilo que não consegue entender
tua fúria, teu ciúme inconsciente;
por não saber trabalhar
suas dúvidas, seus temores
ou por não poder ter
tudo aquilo que quer...

minha sensibilidade é simples
não gosta de barulho
mas gosta de dançar
é simples
e volta e meia
se perde no filme invisível
que você teima em passar
com legendas truncadas
linguagem confusa
e edição enlouquecida

minha sensibilidade
é uma interrogação
neste deserto de absurdas afirmações
não é nada
do que se possa esperar
é simples
e quer aumentar...

(trabalhada em cima do original de Jorge Salomão,
com o mesmo título e usando alguns trechos de sua autoria
(em negrito), tomada emprestada do livro "MOSAICAL" -
Editora Gryphus, 1994, pag 2.

15 junho, 2005

Fechando o Tempo...

Hoje mais uma noite se completa no seu inicio...
Busquei mais intensamente as emoções dentro de mim e as encontrei do lado de fora, expostas em dois blogs que me encantaram, principalmente porque são de duas mulheres, intensas e suaves como só elas conseguem ser, sendo que uma delas é selvagem como uma loba faminta de alma humana. Minha admiração pelas duas foi instantânea, paixão às primeiras palavras, emoções em turbilhonamento constante, paisagens de almas desnudas, expostas á quem tivesse sensibilidade para sentir que, ali, além de mulheres, vivem dois seres humanos maravilhosos, corajosos e fascinantes...
O primeiro que passeei foi WWW.ESTRELACORDETERRA.ZIP.NET – blog da atriz Ana Terra Freire – sentimentos, emoções, palavras soltas no espaço e poesias se formando com elas; e o segundo foi http://correndocomlobos.weblogger.terra.com.br/ - escrito por Layla, onde me aconcheguei e fui envolvido com o carinho, a lucidez e a coragem de suas palavras...

31 maio, 2005

olhando a lua

Essa poesia escrevi durante o carnaval de 2004, quando percebi que o meu relacionamento com uma mulher incrível estava sendo diluído pela distância e pela própria vontade dela, ao se afastar de mim lenta e inexorávelmente.
A decepção, a dor e a consciência de que o fim seria inevitável me fez sentir simultâneamente a impotência perante o fato já consumado e a fúria de querer lutar contra algo que não era palpável nem visível, mas somente emoções que não tinha como controlar ou tentar ao menos administrar, o que me levou á dar vazão a um espírito urbano selvagem e agressivo, que reconheço, me supreendeu e até assustou um pouco, devido ao tom beligerante e sem limites com que me expressei, mas eu gostei do resultado final, pois descreveu exatamente o que estava sentindo em relação ás pessoas como um todo, em todo seu potencial meio idiota e insensível de ser em suas relações...



olhando a lua
ladre...
como um cão vira-latas
grite ao léu
seus pecados, seus medos, seus defeitos
bata com a cabeça
na parede
no muro
manche-os com seu sangue
vermelho escarlate
quente, cheio de vida
ainda pulsando fogo e paixão

bata
cabeça com cabeça
em seus inimigos
faça-os sentir
que você está vivo e furioso
olho por olho
dente por dente
mostre-lhes
que o mar
não está prá peixe
até tubarão
se esconde

acorde para a realidade
esqueça as ilusões
que você mesmo cria
saia desse mundinho
civilizado demais
nobre demais
que mais parece
um conto infantil

esmurre a vida
quantas vezes for necessário
para que ela te dê
aquilo que você quer

jogue pedras
insulte violentamente
ignore
amaldiçoe
vomite aos borbotões
sua indiferença
em quem te magoa

não deseje o mesmo
deseje mais
em dobro
multiplique ao infinito
tudo o que de ruim
te desejarem
te fazerem sofrer

ser legal com as pessoas
é uma virtude
que elas não desejam;
não suportam,
sentem asco perante um sorriso
generoso, sincero.
ser mau
é que é legal,
dá prestígio
te procuram sempre
prá levar mais porrada
porque isso faz com que elas
se sintam miseráveis
vulneráveis,
mais vivas
escravas da própria dor,
que queima como brasa viva
levando-as a um orgasmo doentio,
alimentando profundamente
uma auto-piedade
que elas não querem perder
jamais…

fique quieto...
ouça o seu silêncio...
cala a tua voz...
fique parado
olhando o mar
deixando-o tocar
violentamente
friamente
seus pés
na maré alta
na maré baixa

você não precisa de ninguém
nem de você mesmo
o vazio te basta
prá tantas desilusões,
te alimenta a alma
te trás a tona
de seu próprio oceano,
preenche tua vida
enche teus pulmões de ar
você respira
renasce
num parto sem dor
puro e limpo
como o princípio do mundo
antes de Adão e Eva

e você se basta
ali, quieto, sozinho
sorrindo
deitado na areia molhada
olhando a lua…

buscando a lua

Ainda no espírito da anterior, escrevi essa também, no mesmo dia.
Fica flagrante que aqui estou mais furioso, o animal figurativo é o lobo; um animal com o qual me identifico muito, devido á sua independência, força e autonomia; meu estado de espírito é mais selvagem e solitário; como um lobo de florestas densas e estepes imensas; pois desloquei minha raiva para paisagens inóspitas, mais agrestes e sem fronteiras, numa vontade intensa de me livrar de tudo o que me afligia e limitava naquele momento...



uive
como um lobo solitário
correndo solto
louco
livre
nas pradarias
vales
florestas
abismos do mundo…
alguém vai te ouvir
mesmo que á longa distância
e vai se arrepiar
sentir um vento gélido
percorrer a espinha
e vai saber
que ali existe algo
que não vale a pena encontrar
conhecer
só temer

essa distância
te basta
te realiza
e você sabe
que a partir desse momento
ninguém vai se aproximar
pra fuder tua alma
te capturar
te enganar
te estrupiar

essa solidão
te coloca
frente a frente
com você mesmo
um cão vira-latas
um vagabundo
uma fera
correndo livre
um homem inteiro
no alto de uma colina
com os olhos brilhantes
buscando a lua...








20 maio, 2005

E N C O N T R O S






Paul Auster é, no momento, o meu autor predileto (meu e de milhares de pessoas, claro!). Sua linguagem crua e rebuscada, cheia de simplicidade, nos trás à tona de nós mesmos, de nossos conflitos, nossas dúvidas e certezas. O prazer de ler suas obras permeia cada frase, cada situação, cada labirinto cheio de mistério que nos arrasta até o final da narrativa.




Dele já li “A trilogia de Nova York” e “Noite do oráculo" do qual tirei o texto abaixo, que ele inseriu no rodapé das páginas, como se fossem notas do “autor” descrevendo acontecimentos de sua vida pessoal.




Atualmente estou lendo “A invenção da solidão” – uma espécie de autobiografia onde ele reencontra a figura paterna e revisita a infância após a morte do pai – e “Pensei que meu pai fosse Deus”, uma coletânea de pequenas histórias escritas por cidadãos americanos comuns (leia mais detalhes no post “Mesa para dois”, do dia 14 de Maio 2005).


"Era janeiro de 1979, não muito depois de eu ter terminado meu segundo romance. Meu primeiro romance e um livro de contos anterior haviam sido publicados por uma pequena editora em São Francisco, mas então eu havia me mudado para uma casa maior e mais comercial em Nova York, a Holst & McDermott. Umas duas semanas depois de eu ter assinado o contrato, entrei na sala para ver minha editora e em algum ponto de nossa conversa começamos a discutir idéias para a capa do livro. Foi então que Betty Stolowitz pegou o telefone de sua mesa e me disse: "Por que não chamamos Grace aqui e vemos o que ela acha?" Grace trabalhava no departamento de arte da Holst & McDermott e tinha recebido a tarefa de desenhar a sobrecapa de Auto-retrato com irmão imaginário - que era como se chamava o meu livrinho de caprichos, divagações e tristezas de pesadelo.

Betty e eu continuamos conversando mais uns três ou quatro minutos, e então Grace Tebbets entrou na sala. Ficou ali durante uns quinze minutos e, quando saiu e voltou para sua sala, eu estava apaixonado por ela. Foi assim abrupto, conclusivo, inesperado. Tinha lido sobre essas coisas em romances, mas sempre achei que os autores exageravam no poder de um primeiro olhar - aquele momento incessantemente narrado em que um homem olha dentro dos olhos de sua amada pela primeira vez. Para um pessimista nato como eu, era uma experiência absolutamente chocante. Senti que estava sendo jogado de volta ao mundo dos trovadores, revivendo alguma passagem do capítulo inicial de Vita Nuova (...quando a gloriosa Senhora dos meus pensamentos tornou-se manifesta aos meus olhos), habitando aqueles velhos tropos de mil sonetos de amor esquecidos. Queimava. Ansiava. Definhava. Emudeci. E tudo isso me aconteceu no mais sem graça dos lugares, debaixo do brilho fluorescente de uma sala de escritório do final do século XX - o último lugar da terra onde se pensaria tropeçar na paixão da vida de alguém.


Não há como explicar um acontecimento desses, não há razão objetiva para explicar por que nos apaixonamos por uma pessoa e não por outra. Grace era uma mulher bonita, mas mesmo naqueles primeiros segundos tumultuosos de nosso primeiro encontro, quando apertei sua mão e observei enquanto se acomodava em uma cadeira junta à mesa de Betty, pude ver que não era excessivamente bonita, não como uma daquelas deusas estrelas de cinema que deixam a pessoa tonta com sua perfeição. Não há dúvida de que era atraente, marcante, agradável de se olhar (seja qual for a definição desses termos), mas mesmo sendo feroz minha atração, eu sabia que era mais do que apenas atração física, que o sonho que eu estava começando a sonhar era mais que uma onda momentânea de desejo animal. Grace me pareceu inteligente, mas à medida que a reunião foi rolando e a ouvi falar de suas idéias para a capa, compreendi que não era uma pessoa tremendamente articulada (hesitava muitas vezes entre idéias, limitava seu vocabulário a palavras pequenas, funcionais, parecia não ter nenhum dom de abstração), e nada do que disse aquela tarde foi particularmente brilhante ou memorável. Além de fazer algumas observações simpáticas sobre meu livro, não deu nenhum sinal que sugerisse estar mesmo que remotamente interessada em mim. E, no entanto, ali estava eu em um estado de máximo tormento - queimando e ansiando e definhando, um homem colhido nas malhas do amor.
Ela media um metro e setenta e pesava sessenta e dois quilos. Pescoço esguio, braços longos e dedos longos, pele clara e cabelo curto, louro opaco. Aquele cabelo, percebi depois, tinha alguma semelhança com o cabelo dos desenhos do herói de O pequeno príncipe - tufos espetados lisos e cacheados - e talvez a associação enfatizasse a aura um tanto andrógina que Grace projetava. As roupas masculinas que estava usando aquela tarde devem ter desempenhado seu papel ao criar a imagem também: jeans preto, camiseta branca e uma jaqueta de algodão azul-clara. Uns cinco minutos depois de começada a reunião, tirou a jaqueta e arrumou nas costas da cadeira. Vi então os seus braços, aqueles braços dela, longos, lisos, infinitamente femininos, e entendi que não haveria descanso para mim enquanto não conseguisse toca-los, enquanto não tivesse o direito de pôr as mãos em seu corpo e desliza-las por sua pele nua.
Mas eu queria ir mais fundo que o corpo de Grace, mais fundo que os fatos incidentais de sua pessoa física. Corpos contam, claro - contam mais do que estamos dispostos a admitir - mas não nos apaixonamos por corpos, nos apaixonamos um pelo outro, e mesmo que muita coisa se limite a carne e ossos, há também coisas que não. Todos sabemos disso, mas no minuto em que vamos além de um catálogo de características e aparências superfíciais, as palavras começam a nos faltar, a se desmanchar em confusões místicas, em nebulosas e irreais metáforas. Alguns dizem que é a chama do ser. Outros, a faísca interna ou a luz interior do eu. Outros ainda se referem a isso como o fogo da singularidade. Os termos são sempre oriundos de imagens de calor e luz, e aquela força, aquela essência da vida a que às vezes nos referimos como alma sempre se comunica a outra pessoa pelos olhos. Sem dúvida os poetas estavam certos em insistir nesse ponto. O mistério do desejo começa quando se olha nos olhos da amada, porque só aí é que se pode captar um lampejo do que é aquela pessoa.
Os olhos de Grace eram azuis. Um azul manchado de traços de cinza, talvez um pouco de castanho, talvez um pouco de avelã também, para contrastar. Eram olhos complexos, olhos que mudavam de cor segundo a intensidade e o tom da luz que batia neles em determinado momento, e a primeira vez que a vi aquele dia na sala de Betty, me ocorreu que eu nunca havia encontrado uma mulher que irradiasse tanta compostura, tanta traquilidade de porte, como se Grace, que ainda não tinha vinte e sete anos na época, já tivesse passado para algum estado de ser superior ao resto de nós. Não pretendo insinuar que havia nela algo contido, que pairava acima das circunstâncias com um beatífico olhar de condescendência ou indiferença. Ao contrário, ela esteve bem animada durante toda a reunião, riu com prontidão, sorriu, disse todas as coisas adequadas e fez todos os gestos adequados, mas por baixo do compromisso profissional com as idéias que Betty e eu estávamos lhe propondo, senti uma surpreendente ausência de conflito interno, um equilíbrio mental que parecia isola-la dos conflitos e agressões da vida moderna: insegurança, inveja, sarcasmo, a necessidade de julgar ou diminuir os outros, a insuportável e escaldante dor da ambição pessoal. Grace era jovem, mas tinha uma alma velha e calejada, e sentado junto dela naquele primeiro dia no escritório da Holst & McDermott, olhando em seus olhos e estudando os contornos de seu corpo magro e anguloso, foi por isso que me apaixonei: pela sensação de calma que a envolvia, o silêncio radiante que queimava ali dentro."

SITE DO AUTOR: http://www.paulauster.co.uk/

Pandemônio Paixão

existe o encontro
existe o mistério do olhar
existe a alegria simples
das descobertas
da magia em comum
buscando pontos de contato
sinergia do asfalto
doce desconhecido

idéias cultuadas
sentimentos cultivados
gostos descortinados
buscas carinhosas
expostas
olhos nos olhos
confissões, segredos, sedução
faiscam no ar

almas se unem
espíritos comemoram
corpos se arrepiam
atraídos pela emoção
efervescência, tesão;
paixão destrambelhada
delírio, ilusão, vendaval
intensidade ressoa
perfume no ar
suavidade pessoa

a descoberta da mulher,
da musa,
da amante,
da cúmplice,
da companheira ideal

verborragia de palavras
tempestades de emoções
ciclone de energia
corpos em danças tribais
de acasalamento
suor, fluidos, orgasmos
excitação, calor
furacão turbilhão

atropelando limites,
admiração recíproca
desfrutando a beleza
seduzindo a sutileza
abrindo abismos
de silêncio
ilusão
destemor

medo da paixão - doce embriaguez
medo da força
medo do brilho
medo do calor
medo do sol
medo de mim
medo do meu olhar voraz
meu coração beat acelerado
minhas emoções incendiárias
você...

quem é você?
achei que tivesse te decifrado
mas teu silêncio insinua que me enganei

sou deportado
mais uma vez
jogado num mundo

já meu velho conhecido,
dos degredados da paixão
labirinto dos seres
enredados em sua própria ilusão
onde somente a tristeza e a solidão
me farão companhia
com a tênue luz
de sua lembrança
assombrando minha alma vazia

- escrito ás 4h de alguma madrugada,

em mais uma noite insone,
especialmente para você,
num prenúncio de minha queda
em mim mesmo...
seu silêncio derrotou
minha alegria de ter te conhecido